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SOBRE A DITADURA DA ESTÉTICA

16 out

Olá pessoal!

Depois de um longo período de circunspecção O Alienista está de volta. Afiadíssimo!

Desculpem pelo atraso, mas a motivação para escrever no blog só veio depois do restabelecimento do contato regular com os alunos e alunas.

Vários assuntos poderiam ser escolhidos para inaugurar o novo espaço dO Alienista. Afinal, o que não faltou neste ano foram assuntos candentes. Entretanto, vou tratar de um que esteve presente em uma de minhas aulas  e que, conforme diria um saudoso amigo, “é perfumaria” (neste caso, quase literalmente).

Trata-se da ditadura da estética, ou ditadura da beleza. Fenômeno que vem subjugando há algumas décadas as mulheres e mais recentemente os homens.

Apesar de ser um fenômeno que atinge os dois gêneros, vou me ater neste momento ao subjugo das mulheres.

Impressiona-me o número de atividades que a mulher precisou assumir depois da chamada “revolução feminina” e entre elas, aquelas vinculadas à estética.

Como tenho certa inclinação pela polêmica, vou exercitar um pouco essa minha “vocação”.

Não tenho dúvidas de que a luta feminista trouxe inúmeras e importantes conquistas para as mulheres. Basta comparar uma mulher dos anos 60 com uma de hoje para perceber que  atualmente a mulher está muito mais presente nas nas decisões familiares e sociais, por exemplo.

Ainda assim penso que se  mulheres e homens trabalhadores ao invés de terem se colocado em posições opostas tivessem unido forças para juntos enfrentarem o capital poderíamos estar em condições de existência mais favoráveis tanto para as mulheres quanto para os homens.

Digo isso porque tenho comigo que, apesar da mulher ter muitas conquistas a comemorar, têm também muito há lamentar quando se pensa no quanto o capital vem se aproveitando da luta entre homens e mulheres para ampliar seu domínio e sua acumulação.

Uma vez deixada a provocação mais geral no ar, tratarei apenas da ditadura da estética.

Impressiona-me ver que a mulher precisa se ocupar com o trabalho, a casa, os filhos, o marido e ainda precise reservar um tempo cada vez maior para “cuidar” de si mesma.

É um sem número de produtos para a pele do rosto, das mãos, dos pés, etc. E como são diversos os “problemas” não é possível ter apenas um creme de cada. Afinal, para cada uma dessas partes do corpo existe um sem número de produtos de indicações determinadas: um para as rugas, outro para as manchas, outro para enrijecer a pele… Enfim é possível, tranquilamente, consumir todo o salário com esses produtos sem dar conta de suprir as “necessidades” criadas pela indústria de cosméticos.

Além da pele é preciso tomar cuidado com outras partes do corpo, a exemplo dos cabelos, dos dentes, do tamanho dos seios, dos bumbuns, etc.

Uma mulher que trabalhe, cuide de seus filhos e de sua casa mas que deixe de “cuidar” dos seus cabelos é, no mínimo digna de pena. Neste sentido é bem provável que outra colega que a veja comente: “é uma coitada aquela lá: trabalha o dia todo, cuida da casa, dos filhos, até do marido, mas não arruma tempo pra se cuidar”.

É interessante que o “se cuidar” nos últimos anos tem se tornado muito complexo. Lembro-me que no meu tempo de menino, o “se cuidar” de uma mulher exigia não mais que um creme Nívea, uma escova de cabelo (e, no máximo, um secador de cabelos), um batom e um esmalte. No mais, um perfume e a higiene pessoal permitiriam que ela suprisse todas as “necessidades” estéticas pessoais.

Uma boa dica para pesquisa acadêmica certamente seria mensurar o tempo médio semanal necessário para que uma mulher satisfaça as “suas” necessidades estéticas. Não tenho dúvidas de que o resultado da pesquisa surpreenderia até mesmo as mulheres mais devotadas aos rituais estéticos.

Mas o que mais me impressiona – e aí está a razão deste post nO Alienista – é a força que a ideologia do prazer e da auto-estima exerce sobre a maioria das mulheres.

Seja qual for o meio em que eu esteja e que toque neste assunto com as mulheres, geralmente nem tenho tempo de me expressar e elas já saem na defesa desses rituais. Os argumentos são os mais diversos: “é fundamental para a beleza da mulher”, “melhora a auto-estima”, “faz com que a mulher se sinta mais atraente”, “são momentos de relaxamento”, etc.

Nesses momentos me pergunto: será que Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe e outros ícones da beleza de um passado recente se sentiam menos sensuais, menos atraentes e com a auto-estima baixa por não conhecerem os lançamentos do futuro? E uma aluna se apressou a responder a minha questão: “claro que não professor, naquela época essas coisas não existiam”.

Lógico que ela tem razão!  Mas é justamente daí que vem a minha afirmação de que o capital tem criado novas necessidades para essas mulheres e transformado esse conjunto de novas necessidades em uma ditadura da estética que a cada dia conta com dezenas de novos produtos.

Ao criar essas necessidades tenho a impressão de que o capital aliena a mulher de pelo menos três elementos (além das outras alienações que ela sofre em comunhão com os homens): tempo, dinheiro e convivência com a família.

No mais, a criação de novos produtos é incompatível com o desenvolvimento sustentável (não que eu acredite nisto!). Afinal, a cada novo produto criado aumenta-se o nível de exploração da natureza.

Deste ponto de vista, a beleza e a auto-estima acabam tendo algum custo ambiental. Mas este é um outro assunto….

Bem! Pra não encerrar este primeiro post no Word Press sem poesia, reproduzo abaixo o vídeo de uma música um tanto esquecida, mas que me parece muito importante.

À memória da queridíssima Mercedes Sosa.

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Publicado por em 16 de outubro de 2010 em Uncategorized

 

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