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Sobre o Pensamento Único


            Apresentação

         Neste ensaio escrito em meados de 1995, Ignácio Ramonet, doutor em semiologia e história da cultura pela Escola de Altos Estudos de Paris, professor de teoria da comunicação audiovisual na Universidade de Paris VII e diretor do “Le Monde Diplomatique” descreve com vigorosa argumentação como grupos mais poderosos que os Estados se envolvem numa guerra de vida ou morte pelo domínio mais precioso da chamada “democracia” desde finais do século XX: a informação. Descreve como a publicidade, as pesquisas e o marketing fazem a cabeça de todos a nosso redor. Poucos se dão conta e se rebelam. Segundo o Autor, “o poder político é miseravelmente um terceiro poder. Antes dele está o poder econômico e, a seguir, o poder da mídia. E quando se possui estes dois, haver-se com o poder político não passa de mera formalidade.” (LCC)

De todas as ilusões

a mais perigosa consiste em pensar

que não existe mais que uma realidade.

Paul Watzlawick

            O Pensamento Único e os Novos Senhores do Mundo

Ignácio Ramonet 

              É como uma ficção de Jorge Luis Borges. Em um reino distante, um soberano magnífico e cruel, apegado aos atributos de seu poder, durante a maior parte do tempo dentro de seu palácio, aparentemente não percebeu que o mundo havia mudado ao seu redor. Até que chegou o dia da grande decisão. Naquele momento, para sua surpresa, viu que suas ordens não eram nada mais que simples ruídos, que não se traduziam mais em atos. O poder havia se deslocado e o soberano magnífico havia deixado de ser o Senhor do Mundo…

            Aqueles que, nas grandes democracias, se envolvem em intermináveis atividades eleitorais para conquistar o poder, se arriscam, em caso de vitória, a experimentar um desengano semelhante ao do soberano desta fábula. Sabem eles que, neste final de século, o poder mudou completamente de eixo? Que desertou destes espaços precisos que estavam circunscritos ao político? Acaso não correm o perigo de mostrar bem rapidamente e de público o espetáculo de sua impotência; de se verem obrigados a andar em círculos, retroceder, renegar suas opiniões e reconhecer que o verdadeiro poder decisório se encontra em outra parte, fora de seu alcance?

            Um grande semanário francês publicou recentemente uma enquête acerca dos homens mais influentes do planeta. Nem um único chefe de estado ou de governo, de país algum, aparecia nela retratado. Outro semanário dedicou, há algumas semanas, sua primeira página ao homem mais influente do mundo. De quem se tratava? Do Sr. Bill Clinton? Do Papa João Paulo II? Do Sr. Helmut Kohl? Do Sr. Boris Yeltsin? Não! Significativamente do Sr. Bill Gates, dono da Microsoft, que domina os mercados estratégicos de comunicação e está disposto a controlar todo o tráfego da Internet em todo o mundo. As formidáveis comoções científicas e tecnológicas das últimas décadas incentivaram, em vários âmbitos, as teses ultraliberais do “lassez faire, laissez passer”. A queda do Muro de Berlim, o desaparecimento da União Soviética a derrubada dos regimes comunistas, por acréscimo, lhes trouxe poderoso alento. A mundialização das trocas de informações, particularmente, se acelerou de maneira fabulosa graças à evolução da Informática e das comunicações. Estas, concretamente, geraram a explosão – o célebre big bang – de todos os setores, verdadeiras colunas vertebrais da sociedade moderna: os mercados financeiros e as redes de comunicação.

            A transmissão de dados à velocidade da luz (300.000.000 m/s), a digitalização de textos, satélites de telecomunicação, a revolução da telefonia, a generalização da Informática na maioria dos setores de produção e serviços, a miniaturização dos equipamentos e sua conexão em redes que cobrem todo o planeta, pouco a pouco modificaram de cima abaixo o ordenamento do mundo.

            Especialmente o mundo das finanças. Este reúne as 4 qualidades que fazem dele um modelo perfeitamente adaptado à nova ordem tecnológica: é imaterial, imediato, permanente e planetário. Atributos, por assim dizer, divinos e que, logicamente, dão lugar a um novo culto, uma nova religião: a do mercado. Os intercâmbios de dados de um extremo ao outro da Terra são feitos instantaneamente, noite e dia. As principais Bolsas de Valores estão vinculadas entre si e funcionam continuamente. Sem interrupção. Enquanto, através do mundo, diante de suas telas eletrônicas, milhares de jovens superdiplomados e superdotados, passam seus dias colados ao telefone. São osexperts da nova ideologia dominante: o pensamento único. Aquela que sempre tem razão; tem de inclinar-se não importa diante de que argumentos – particularmente quando se trata de argumentos de ordem social ou humanitária.

            Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres se sentem enganados, presos na armadilha desta doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo o racionalismo rebelde. O inibe, o paralisa e acaba por afogá-lo. Há somente uma doutrina, a do pensamento único, autorizada por uma política de opinião onipresente e invisível.

 Os mandamentos do Pensamento Único

             Desde a queda do Muro de Berlim, a derrubada dos regimes comunistas e a desmoralização do socialismo, a altivez e a insolência desta doutrina alcançou tal nível que, sem exagero, pode-se qualificar a este novo furor ideológico de dogmatismo moderno.

            O que é o pensamento único? A tradução em termos ideológicos de pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças econômicas, particularmente as do capitalismo internacional. Se pode dizer que está formulada e definida a partir de 1944, por ocasião dos acordos de Breton-Woods. Suas fontes econômicas e monetárias – Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Comissão Européia, Banco da França, etc. – que, mediante seu financiamento, colocam a maior parte dos centros de investigação, universidades e fundações a serviço de suas idéias em todo o planeta. Estes se afinam com o dogma e se encarregam de propagar a boa nova.

            Esta é recolhida e reproduzida pelos principais órgãos de informação econômica e principalmente pelas bíblias dos investidores e especuladores da Bolsa de Valores – The Wall Street JournalThe Financial TimesThe EconomistFar Eastern Economic ReveiwAgência Reuter, etc. – que, não por acaso, são de propriedade de grandes grupos industriais ou financeiros. Em quase todos os lugares do planeta, faculdades de ciências econômicas, jornalistas, ensaístas e políticos, examinam cuidadosamente os principais mandamentos destas novas tábuas da lei e, usando como caixas de ressonância os meios de comunicação de massas, que os reiteram até a saciedade sabendo a ciência certa que, em nossa sociedade midiática, repetição vale por demonstração.

            O primeiro princípio do pensamento único é tão mais forte que mesmo o marxista mais distraído não o renegaria em absoluto: o econômico prima sobre o político. Fundando-se neste princípio ocorreu, por exemplo, de um instrumento tão importante quanto o Banco da França, tornar-se independente sem qualquer oposição mais significativa em 1994 e, de certo modo, ficou a salvo dos azares da política. “O Banco da França é independente, apolítico e suprapartidário”, afirma, com efeito, seu presidente, o Sr. Jean-Claude Trichet, que acrescenta, todavia: “Pedimos que se reduzam os déficits públicos” e “pretendemos uma estratégia de moeda estável”. Como se estes dois objetivos não fossem políticos.

            Se defende em nome do realismo e do pragmatismo – que o ensaísta neoliberal Alain Minc formula da seguinte maneira: “Não se pode derrubar o capitalismo. É o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado, sim.” – A economia se coloca em posição de mando. Uma economia liberada, como é natural, obstaculiza o desenvolvimento social, torna-se uma espécie de canga patética cujo peso é, ao que parece, retrocesso e crise.

            Os outros conceitos-chave do pensamento único são conhecidos: o mercado, cuja mão invisível corrige as asperezas e disfunções do capitalismo e, muito especialmente, os mercados financeiros, cujos signos orientam e determinam o movimento geral da economia; a competência e a competitividade que estimulam e dinamizam as empresas levando-as a uma permanente e benéfica modernização; o livre intercâmbio sem limites, fator de desenvolvimento ininterrupto do comércio e, por conseguinte, da sociedade; a mundialização, tanto da produção manufatureira como dos fluxos financeiros; a divisão internacional do trabalho que modera as reivindicações sindicais e barateia os custos salariais; a moeda forte, fator de estabilização; a desregulamentação; as privatizações; a liberalização; etc. Cada vez menos Estado, uma arbitragem constante a favor dos ingressos de capital em detrimento daqueles do trabalho. E uma indiferença a respeito dos custos ecológicos.

            A repetição constante, em todos os meios de comunicação, deste catecismo por parte dos jornalistas de reverência e de praticamente todos os políticos, de direito como os alegadamente “de esquerda”, confere a esta ideologia uma força de intimidação tão grande que afoga toda a tentativa de reflexão livre e torna muito difícil a resistência contra este novo obscurantismo.

            Se pode quase chegar a considerar que os 17,4 milhões de desempregados europeus, o desastre urbano, a precarização geral, os subúrbios a ponto de explodir, o saque ecológico, são simples miragens, alucinações culpáveis e altamente discordantes deste mundo feliz que o pensamento único está edificando para nossas consciências anestesiadas.

            O mais freqüente, contudo, é que os mercados funcionem, por assim dizer, às cegas, integrando parâmetros tomados de empréstimo à bruxaria ou à psicologia barata, como: a economia do boato, a análise de comportamentos gregários e inclusive estudos de comportamentos miméticos. Sobretudo porque, em virtude de suas novas características, o mercado financeiro colocou à disposição uma enorme gama de novos produtos – derivados, futuros – extremamente complexos e voláteis, que poucos experts conhecem bem e que dão a estes uma vantagem considerável nas transações – não sem riscos, como o desastre financeiro do banco britânico Barings nos mostrou recentemente –. Há apenas uns 10 no mundo que sabe atuar de maneira útil – ou seja, em prol de seu maior benefício – sobre a circulação de valores ou de moedas. São considerados os senhores dos mercados: uma palavra de um deles e tudo pode desabar: o dólar cai, a bolsa de Tókio desaba, etc.

            Frente à potência destes mastodontes das finanças, os Estados já não podem fazer grande coisa. A recente crise financeira do México, desencadeada em finais de dezembro de 1994, o mostrou de maneira cabal. Que peso têm as reservas acumuladas em divisas dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Canadá – os sete países mais ricos do mundo – frente ao poder dissuasório financeiro dos fundos de inversão privados, em sua maioria anglo-saxões ou japoneses? Não muito. A título de exemplo, pensemos que, no mais importante esforço financeiro que jamais se consentiu na história econômica a favor de um país – neste caso, o México – os grandes Estados do planeta, entre eles os Estados Unidos, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional conseguiram, todos juntos, reunir aproximadamente 50 bilhões de dólares, uma soma considerável. Pois bem, os três fundos de pensão dos Estados Unidos, somente eles – os Três Grandes de hoje em dia – Fidelity Investments, Vanguard Group e Capital Research and Management controlam nada menos que 500 bilhões de dólares.

            Os gerentes destes fundos concentram em suas mãos um poder financeiro de envergadura inédita, que não existe em nenhum ministro da economia nem banco central de governo algum. Num mercado que se converteu em instantâneo e planetário, toda mudança brutal destes autênticos mamutes das finanças pode originar a desestabilização econômica de qualquer país do mundo.

Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/pensamentounico_ramonet.htm

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