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Copavi: sinal de que um “outro mundo é possível”

Há poucos dias vivi uma experiência que, acredito, deve ser compartilhada. Conheci a COPAVI – Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória, uma cooperativa fundada por pequenos produtores rurais assentados em uma fazenda com sede em Paranacity, no Paraná.

É bom que se diga que a COPAVI não é só uma cooperativa daquelas que os indivíduos criam para obter lucros. Pelo que pude perceber, é muito mais que isso,  é um estilo de vida. Um tipo de sociedade onde a cooperação e a comunhão nos permite sonhar com uma vida mais plena de sentido. Uma vida que não seja tão parcial como é a maioria de nossas vidas.

Mas vamos a experiência. Assim que cheguei à fazenda, pude ver uma porção de crianças brincando e perguntei a uma delas, onde morava a minha aluna, a pessoa que me apresentaria a cooperativa.

Ocorrido o encontro, enquanto caminhávamos, minha aluna ia respondendo ao turbilhão de perguntas que eu  formulava.

Primeiro fomos conhecer a cadeia produtiva do leite. Na fazenda cria-se gado leiteiro e a partir do leite se produz leite pasteurizado, queijos e iogurte.

Conheci também a cadeia produtiva da cana. E dentre as coisas que vi, percebi que, diferente dos grandes usineiros, os agricultores da Copavi não queimam a cana. Colhem-na com a palha, que depois de separada é usada para cobrir o solo (arenito caiuá), já bastante judiado pelo uso intensivo de outrora. Dessa forma, há uma maior retenção da umidade e a decomposição da palha permite a recuperação do solo.

Da cana se produz o açúcar mascavo que posteriormente é distribuído no mercado nacional.

Detalhe importante é o fato da caldeira ser aquecida com o próprio bagaço da cana, processo que evita a extração de madeira para o uso na forma de lenha.

Em seguida fomos a horta comunitária, onde são produzidos os legumes e hortaliças consumidos pelas 22 famílias cooperadas. Minha aluna assegurou que são todos produtos orgânicos, logo, livre de herbicidas.

É claro que a Copavi não é o paraíso. Minha aluna reconhece que ainda há muito que se conquistar e muito o que fazer, entretanto, lembra que há 18 anos os agricultores chegaram à fazenda sem nada e hoje, além de conseguirem se manter, para o desespero dos defensores da superioridade intelectual burguesa, contratam força de trabalho de moradores do município de Paranacity.

Isso mesmo, caro leitor, agricultores familiares associados não só dão conta de suas próprias existências sem a necessidade de um patrão como contratam força de trabalho exterior à cooperativa para dar conta do trabalho social necessário.

Como a visita ocorreu num final de domingo, boa parte dos jovens estavam jogando “uma pelada” no campo de futebol que fica ali mesmo, na fazenda. As crianças brincavam em volta do campo, no “playground”, ou com a terra. As moças, ou assistiam ao jogo ou ocupavam o tempo conversando.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a relação que os adultos têm com as crianças. Por serem todos de uma mesma comunidade e terem um convívio muito intenso, todos se sentem responsáveis pelas crianças que mais parecem filhos da comunidade. Assim independente de estarem perto dos pais as crianças recebem a atenção e o cuidado dos adultos.

Mas dentre tudo o que vi, talvez o que mais tenha me impressionado foi saber que a terra, as instalações, os veículos e até mesmo as casas onde moram os cooperados são de propriedade coletiva.

Imaginem vocês, tudo é de todos e não é de ninguém em particular. Todos trabalham coletivamente para a comunidade e no fim das contas, para si mesmos.

Me fez até lembrar de uma frase de Raul Seixas, mais ou menos assim: “O meu egoísmo é tão egoísta, que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”.

Me parece que é exatamente o que fazem os cooperados da Copavi. Certamente se há 18 anos tivessem chegado sem nada em Paranacity e fossem cuidar de seus interesses individuais (egoístas) hoje, certamente, boa parte deles estariam vendendo sua força no corte da cana e teriam, no máximo, uma casa própria e uma existência extremamente limitada. Além de problemas com a saúde, claro!

Entretanto, os pequenos agricultores resolveram se ajudar, e como consequência construíram uma cooperativa que é modelo não só para a comunidade local, como para todo o Brasil. Assim, satisfazem suas necessidades materiais e vivem, indubitavelmente, menos alienados que a maioria de nós, em diversas dimensões de suas existências.

Outro elemento simbólico que me pareceu bastante significativo é o fato de que os cooperados tomam o café da manhã e almoçam em refeitório coletivo, todos juntos.

Sendo assim, mesmo sabendo que a Copavi tem seus limites, até por depender da relação com o restante da sociedade no que concerne à produção, ao comércio, ao consumo, à educação formal, etc., ainda assim, vejo a Copavi como um sinal de que um “outro mundo é possível”.

Vejo diariamente nos jornais, nas revistas, nos livros e no imaginário social a visão, a meu ver equivocada, de que será possível transformar o mundo a partir de idéias baseadas na moral, na ética, na paz, e nas atitudes isoladas de cada um tendo em vista “um mundo melhor” (essa expressão me parece vazia de sentido). Entretanto, quando tento entender o funcionamento da sociedade, verifico que tais princípios morais e a observação da ética, boa parte das vezes, mais atrapalham os sujeitos do que os ajuda. Afinal, estamos no “mundo dos espertos” e são exatamente estes os que se dão bem.

Vamos a um exemplo: determinado sujeito depois de anos ralando e decorando o catecismo das novas formas de gerenciamento das empresas, professando o credo neoliberal e com muita fé em Deus, chega ao posto de executivo de uma grande empresa e, além de todo o “stress” decorrente das pressões por metas, etc., está diante de uma situação difícil: para cumprir as metas estabelecidas e, portanto, garantir o sucesso de “sua”empresa, o nosso executivo precisa explorar ao extremo um grupo de trabalhadores, pagando baixos salários e exigindo que se faça horas extras que não serão pagas sob a certeza da impunidade. Nosso executivo vê que este é o único caminho que lhe resta para baixar os custo de produção em “sua” empresa e, portanto, a única forma de ser competitivo em um setor onde a precarização e o uso extensivo de novas tecnologias predomina.

Se este executivo observar um código de ética ou uma determinada moral religiosa – a menos que eu esteja enganado – experimentará, em vão, um intenso sofrimento por ser obrigado a contrariar seus princípios, sob pena de deixar ir por terra todo o investimento que fez em sua “brilhante carreira”. Por outro lado, se for um homem livre de valores, sentirá prazer em ver atingido seus objetivos e receberá com júbilo os louros de seu sucesso.

Penso, inclusive que o exemplo pode ser adaptado para diversas áreas sociais, como à  política, à relação com o meio ambiente, às atividades acadêmicas, ou a qualquer outra situação em que, tendo em vista as condições objetivas, os indivíduos envolvidos se obrigam –  a menos que arquem com as consequências disso – optar pelo que não é moralmente aceito nos códigos de ética.

Outras possibilidades, me parece, só estão reservadas àqueles que, entendendo as regras, não queiram fazer parte do jogo.

É neste sentido que digo que experiências como a da Copavi são sinais de que um “outro mundo é possível”. A estrutura democrática da cooperativa e a necessidade que cada um tem em relação ao trabalho do outro, a meu ver, cooperam para uma postura de ética humanista.

Estou pressupondo que em comunidades como a Copavi, são os indivíduos os senhores do processo social, logo têm potencialidade de não serem reféns de uma lógica exterior que limite seus comportamentos e suas ações.

Entendo, por outro lado, que o exercício da democracia, necessário em comunidades como esta, deve ser muito desgastante até que se torne hábito. Afinal, o exercício não é habitual nas relações sociais que reproduzimos. Entretanto, não tenho dúvidas de que é extremamente enriquecedor.

Pensamento utópico? Certamente. Mas a insistência em continuar reproduzindo um modelo de sociedade autodestrutiva, onde as teorias da sustentabilidade não se sustentam não é igualmente utópico?

Enfim, eu, um aprendiz da sociologia, tive uma aula de sociologia extraordinária. Que bom!

Curiosidade:

Um dos maiores problemas da Copavi, a despeito de respeitar as exigências da sustentabilidade e mesmo sendo um projeto de inegável contribuição social, é a dificuldade que se tem para conseguir financiamentos públicos. Há vários projetos que poderiam ser implantados para reduzir a necessidade do uso da força-de-trabalho, aumentar a produção da Cooperativa e liberar os cooperados de parte do tempo dedicado à produção,entretanto, não há dinheiro para isso.

Interessante é que há pouco tempo estive em uma das unidades da usina que predomina na região Noroeste do Paraná e vi uma placa informando que o BNDES havia liberado 100 milhões de reais para aquela unidade da Usina (clique aqui para ler).

Também nos últimos dias, temos visto vários de nosso políticos interessados em justificar um empréstimo do BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento Social (que usa o dinheiro do FAT, portanto, de nós trabalhadores) no valor de 1,7 bilhão de EUROS, cujo benefício social vai exclusivamente para o Sr. Abílio Diniz e seus sócios franceses (ser empresário de sucesso assim, até eu sou!) – Clique aqui para ler.

Perguntinhas: Por que tem dinheiro pro Abílio, pro Dantas, pros capitalistas em geral e para a Copavi não tem? Quem presta serviços de maior relevância social? Por que a Veja, que anda sem assunto e está querendo ressuscitar  “os aloprados” para criar mais um “escândalo”, não lança uma capa “bombástica” mostrando o escândalo que é o dinheiro do trabalhador ser embolsado descaradamente pelos seus patrões (de novo) sem previsão de retorno nenhum à sociedade???

Registro: Meus sinceros agradecimentos à Claudete pela oportunidade, pela paciência e pela excelente aula.

Fiquem com Chico Buarque, Assentamento e, para matar a saudade dos tempos da Teologia da Libertação, Chico Rey e Paraná, A grande esperança.

 
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Publicado por em 2 de julho de 2011 em Uncategorized

 

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