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Sobre a dança das cadeiras no Governo Dilma

Os leitores e as leitoras deste blog devem saber que quando estava no Sapo, O Alienista fez campanha para a Presidente Dilma e sofreu muito com a eleição de 2010. Aquela que, me parece, só não foi pior que a de 1989.

Quem conhece O Alienista também sabe que apesar dele ter se posicionado favorável à eleição de Dilma, só o fez por ter convicção de que uma vitória dos Demotucanos seria muito pior para a classe trabalhadora e para aqueles que estão excluídos.

Entretanto, é bom que se diga que, por diversas razões, desde o início da década de 90, deixamos de acreditar na política institucional.

Mas voltando à conjuntura política atual, era dado que Palocci ocuparia um cargo no governo Dilma, basta observar sua presença marcante na campanha.

Aliás, me surpreendeu o fato de José Dirceu não ter assumido nada.

Mas acredito que a análise do caso Palocci, apesar de suas peculiaridades, não deve se restringir  às ações duvidosas do ex-ministro.

Não que eu não saiba que o Palocci não é  “flor que cheire” desde os tempos em que foi prefeito de Ribeirão.  Ele foi um dos  primeiros prefeitos do PT a privatizar empresas  públicas. Foi ele quem vendeu a empresa de teles da cidade.

Entretanto,  penso que uma análise voltada só para a as ações pessoais de Palocci não nos permite ver o que há para além das aparências.

Tenho a impressão de que todos os “escândalos” que ocorreram no Brasil desde a década de 1990 (nem sei quantos foram vazados) têm, além dos componentes culturais da política brasileira, uma forte ligação com pelo menos dois elementos fundamentais.

Em primeiro lugar o esvaziamento ideológico dos partidos que chegam ao governo e, em segundo lugar, o encarecimento das campanhas eleitorais.

São impressionantes as cifras anunciadas para se fazer uma campanha eleitoral em qualquer nível em que se dê a disputa.

Isso sem contar os montantes que não são anunciados por constituírem “caixa 2”.

Sabe-se muito bem de onde vem o dinheiro que financia essas campanhas e certamente não são doações “voluntárias” da classe trabalhadora.

Como diz o provérbio popular: “tudo nessa vida tem um preço!” Portanto, não dá pra esperar que qualquer empresa ou “empreendedor”, “colabore” com um candidato, seja ele qual for, em função da cor de seus olhos ou por paixão a um determinado partido.

Muitos acordos são necessários pra se ganhar uma eleição. Por isso, inclusive, que O Alienista dizia que levar a disputa presidencial para o segundo turno só aumentaria o preço que a população deveria pagar por tais acordos.

Mas com relação à dança das cadeiras ocorridas nos ministérios, apesar das condições objetivas não serem muito favoráveis, me parece que Dilma está apostando alto no sentido de salvar sua biografia e a reputação de seu mandato.

Posso estar sendo inocente, mas tenho a impressão de que Dilma é uma mulher bem intencionada e de princípios (o problema é saber que princípios são estes. rs). Sendo assim, no que depender dela, acredito que haverá avanços na democracia burguesa brasileira e caminharemos, dentro do possível, rumo ao aprofundamento do “social-liberalismo” inaugurado pelo ex-presidente Lula.

Quanto à nova Ministra da Casa Civil, tenho ressalvas ao nome Gleisi Hoffmann. Não por conta dela – não a conheço o suficiente -,  mas por conta de ser esposa do ministro Paulo Bernardo, político que sempre esteve à direita no PT.

Não podemos nos esquecer de que além dos inimigos intestinos do governo existem aqueles que são mais protuberantes. Exemplos: O PMDB, o Supremo (segundo poder executivo e legislativo do Brasil), as determinações do capital financeiro e o PIG, claro! (Afinal do jeito que se ganha eleições e do jeito que se governa é possível identificar um escândalo por dia, de acordo com a conveniência).

Mas enfim, parece que agora Dilma Roussef vai poder dizer a que veio, aguardemos!

Ah! ainda falta assistirmos ao “pedido de demissão” do Excelentíssimo Ministro da Justiça o Senhor José Eduardo Cardozo. Assim será possível arriscar a afirmação de que as raposas foram retiradas do galinheiro.

Mas claro que o  fato de não estarem no galinheiro não impede as raposas de exigirem o pagamento da talha por parte  da  “dona do galinheiro”. Mas essa é uma outra conversa.

Quanto ao “pacote de maldades”  que estamos presenciando neste início de mandato, penso que isso são coisas de primeiro ano de governo e fazem parte do “acerto do terreno” e do cumprimento dos sagrados acordos de campanha. Incluo aí a construção de Belo Monte, a privatização dos aeroportos, etc.

Se acho isso normal? claro que não! Entretanto, vivendo em uma sociedade burguesa, não consigo pensar em práticas diferentes ou mais avançadas (à esquerda) sem o barateamento das campanhas e sem um maior envolvimento da população nas questões políticas.

Diferente da classe trabalhadora, a burguesia participa de seus sindicatos, contribui para os seus partidos e associações e até compra os passes dos eleitos. Logo, levam a melhor!

Alguém pode estar perguntando: então qual a diferença entre os demotucanos e os petistas se as condições objetivas são iguais para ambos?

Penso que entre os petistas ainda tem uma correlação de forças entre alas à direita e alas à esquerda. Tanto dentro do governo, quanto dentro do partido. Isso tem levado, como levou no Governo Lula, a avanços pontuais nas políticas públicas, na inclusão social e numa distribuição de renda menos “pornográfica” que a praticada pelos “neoliberais puro-sangue” do PSBD/DEM.

Outra diferença é a descriminalização dos movimentos sociais que perduram sob os governos de Lula e Dilma. O que parece importante, apesar de sub-aproveitado.

Por último, ninguém merece viver sob a dinastia da “Opus dei” que apoiou o Zé Serra. Deus nos livre de  uma nova Inquisição!!!

Isso é pouco? Eu também acho! Entretanto, não me lembro de ter visto as coisas “caírem do céu” para a classe trabalhadora, como não me lembro do momento em que acabou a luta de classes.

Sendo assim, acredito que as coisas só vão sair do patamar do “menos pior” para o “melhor” quando a classe trabalhadora, tomar para si o leme da história.

E “pra não dizer que não falei das flores”, deixo uma belíssima poesia para a apreciação e reflexão do caro leitor e da cara leitora.

QUANDO OS TRABALHADORES PERDEREM A PACIÊNCIA

Por: Mauro Iasi(*)
As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

* Mauro Iasi é Professor da UFRJ.

 
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Publicado por em 13 de junho de 2011 em Uncategorized

 

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