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Morte de Zé da Castanha é comemorada no Congresso Nacional

Caros leitores e leitoras:

É com grande comoção que faço uma pausa nas minhas atividades acadêmicas para compor este post.

Ontem, um casal de lideres extrativistas, foi brutalmente assassinado e a orelha do marido foi arrancada para ser apresentada como prova de que a missão foi cumprida (leia a matéria clicando aqui).

O bravo senhor José Cláudio Ribeiro da Silva, o Zé Cláudio, ou simplesmente Zé da Castanha, vivia dos frutos da floresta, a partir dos quais produzia um conjunto de produtos que garantia a si, e aos seus, uma sobrevivência digna.

O  Zé da Castanha sabia que seria morto. Mas também sabia que a sua causa era maior que a sua vida.

O  Zé da Castanha poderia ter feito conluio com os posseiros. Poderia ter traído seus companheiros e assim continuar vivo. Poderia, quem sabe, estar rico se a invés de defender a floresta, tivesse se aliado aos posseiros, aos grileiros e ajudado a desmatar, a devastar, a destruir o que ainda resta.

O Zé da Castanha podia ter usado o seu carisma e a sua popularidade para ser eleito vereador, deputado ou mesmo um senador “verde”, e assim, poderia estar rico como estão outros que outrora estiveram nas fileiras do movimentos sociais.

Poderia estar bem, como estão Palocci, Zé Dirceu, Lula, Zé Serra, Álvaro Dias, Marina Silva e tantos outros que se valeram dos movimentos populares para se locupletarem no poder.

O Zé da Castanha  certamente não era o tipo do “cara esperto”. Era do tipo sonhador. Um idealista!

Enfim, era um sujeito ultrapassado. Daqueles que ainda sonham com projetos coletivos de sociedade e que são tão “idiotas” que morrem por eles.

Como eu disse, o Zé da Castanha sabia que ia morrer, mas foi tão “burro” que ao invés de compor, de se vender, como fizeram outros companheiros,  resolveu seguir firme, tentando com as poucas armas de que dispunha, mostrar ao mundo o ponto de vista de seu povo. Tentava ele viver em paz na sua “diferença”.

“Diferença” que virou uma palavra “cool”, tá na moda!

Tá na moda, é ensinada na escola, mostrada na televisão e nas revistas semanais. Enfim, é muito bacana!

É bacana ser diferente. Desde que a sua diferença não incomode os interesses urgentes da burguesia: de crescimento econômico, de desenvolvimento, de progresso.

É bacana. Desde que respeite a maneira de ser, de viver, de produzir e de ver o mundo que são próprios da burguesia e, por extensão, da classe média.

Você pode ser diferente. Desde que a sua diferença possa ser explorada para dar lucro.

Você pode ser diferente. Mas só se você for igual a tudo aquilo que te mostramos nos canais de comunicação e dizemos que é o “diferente” e, portanto, bacana!

Enfim, você pode ser diferente, desde que você não me incomode; e será muito bem vindo se a sua diferença se transformar em “nicho”  de mercado para que eu possa explorá-lo enquanto consumidor.

O Zé da Castanha  era diferente. Ele tentava viver a vida que escolheu, de acordo com os preceitos da liberdade burguesa e agindo dentro da lei burguesa.

Mas havia uma diferença: a sua “diferença” era uma diferença,  que incomodava e, pior, impedia a passagem do trem do progresso.

Sua morte, dentre outras suscitações, nos faz parar para analisar o direito burguês. A burguesia faz a lei, propaga a lei, a ordem, a ética e a moral, entretanto, quando vê empecilhos para o seu avanço, age na ilegalidade até conseguir patrocinar, por meio do acumulo do capital,  a mudança da lei.

Se os assassinos do Zé da Castanha e de sua esposa tivessem esperado até o dia de hoje, talvez não precisassem ter sujado as mãos de sangue.

Hoje, caro leitor, o destino nos brinda com uma trágica ironia. Hoje, a Câmara dos Deputados comemorou a morte do Zé da Castanha e de sua brava esposa com a aprovação do Novo Código Florestal Brasileiro (clique aqui para ler).

Caro leitor, tudo o que os poceiros, desmataram, devastaram, roubaram e surrupiaram  do povo da floresta e da União agora é tudo legal.

O produto do roubo se tornou direito e posso apresentá-lo à sociedade como fruto do meu trabalho.

Ou seja, caro leitor, este é o mundo onde o crime compensa!

Este é o mundo em que  o limite é posto pela quantidade de dinheiro que se tem.

A lei, ora a lei! Como diria Weber, os homens são livres para fazerem e desfazem as leis de acordo com a sua vontade. E assim o fazem!

Mas não qualquer homem. Mas sim aqueles que têm dinheiro para comprar os deputados e os senadores necessários por meio de expedientes como a contratação de  “consultorias” especializadas em produzir favores políticos.

O Zé da Castanha e sua esposa morreram ontem, caro leitor, mas infelizmente, hoje não teremos um Jornal Nacional com reportagem especial.

Não teremos reportagem especial por que José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo eram “ros à esquerda”. Representavam o atraso, uma forma de vida rudimentar, resistente ao progresso.

Pessoas como essas quando morrem, merecem no máximo uma nota de rodapé para alertar aos companheiros que restaram acerca do risco que estão correndo ao tentarem barrar o “desenvolvimento”.

Não teremos uma reportagem especial hoje e nem uma capa na Veja da semana que vem, porque, diferente do “Zé” Alencar, o “Zé” da Castanha não foi um exemplo de empreendedorismo.

O “Zé” da Castanha não ficou milionário explorando o trabalho de outros homens como fez o bom e velho “Zé”, Alencar!

O Zé da Castanha não quis se valer de seu prestígio junto aos extrativistas para ser um grande político e, por consequência, um”homem bem sucedido”.

Diga-me o que fazes e direi que “Zé” tu és!

Imagine você, caro leitor, se o Zé da Castanha, ao invés de um bravo e resistente extrativista fosse o rei do Agrobusiness nacional.

Um desses que comprometem os lençóis freáticos por meio do uso intensivo de agrotóxicos. Desses que irresponsavelmente contaminam as sementes naturais ao cultivar sementes transgênicas. Desses que, não obstante a produção de tantas mazelas,  contribuem para o invejável crescimento do PIB brasileiro.

Pense agora que este rei do agrobusiness tenha  sido assassinato por um assentado e sua orelha tenha sido apresentada aos seus pares como prova do feito.

Não é difícil imaginar o que o casal modelo (Willian Bonner e Fátima Bernardes) diriam no Jornal Nacional.

Imaginem vocês quantos dias não duraria essa novela?

Os filhos do Zé da Castanha e da Maria do Espírito Santo – que hoje devem estar inconsoláveis -, apareceriam chorando na televisão. Contariam os detalhes da tragédia. Mostrariam ao mundo o quanto o Zé da Castanha foi um bom pai, um bom amigo, um bom patrão. etc.

Pai, mãe e amigos do Zé da Castanha dariam seus depoimentos inconformados com brutalidade do crime e com a tristeza que estariam sentido.

O corpo seria velado no Palácio do Governo local, onde um bando de políticos puxa-sacos que viviam as custas do Zé iriam chorar lágrimas de crocodilo, junto à família, a fim de manter a continuidade dos negócios escusos que o Zé mantinha com Vossas Excelências.

Na próxima quinta-feira teríamos um Globo Repórter especial mostrando a ligação que os assentados que mataram o Zé, mantinham com o narcotráfico internacional e com o contrabando de armas. Quicá com a Al Qaeda do também brutalmente assassinado (será?) terrorista, Bin Laden.

Enfim senhores, a morte do Zé ocuparia por sete longos dias o noticiário e estamparia a capa dos principais jornais e revistas nacionais.

Entretanto, o Zé da Castanha não era o rei do agrobusiness e quem o matou não foi um assentado. Quem o matou provavelmente é um grileiro que hoje comemora a aprovação do novo código florestal enquanto o corpo de Zé e de sua esposa estão sendo sepultados.

No sepultamento do Zé e da Maria não haverá a presença da televisão. Não  haverá comoção nacional. Não haverá luto oficial de três dias.E nós não veremos ninguém chorando pela morte do Zé.

Não porque ninguém vai chorar. Mas porque a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão não chegaram à família e aos pares do Zé e da Maria para que eles possam mostrar a todos os seus sofrimentos e os seus mais profundos sentimentos.

A partir de hoje a polícia deve iniciar as investigações para apurar o caso da morte do Zé e da Maria.

Depois do inquérito vem o processo, as chicanas, as sentenças, os recursos, o esquecimento…

Mas fica uma certeza: os deputados brasileiros, ao legalizarem, MAIS UMA VEZ, a posse; portanto, o roubo, a rapina e a violência, sinalizam que o Zé da Castanha era o cara errado, na hora errada, fazendo a coisa errada.

Mais do que isso! A impressão que tenho é de que 410 nobres deputados (86,5% deles) comemoram hoje a morte de José Cláudio Ribeiro da Silva, de Maria do Espírito Santo, de Chico Mendes e dos 19 agricultores que morreram no massacre de Eldorado dos Carajás com a aprovação do Novo Código Florestal.

Não me surpreenderia ver os nobres deputados da bancada do agronegócio comendo pincanha gorda e bebendo vinho do porto junto à direção da Confederação Nacional da Agricultura  – CNA, em comemoração à dupla vitória: A morte do Zé da Castanha (com a esposa) e a aprovação do Novo Código Florestal.

Caro leitor, tenha muito cuidado com aquilo que você anda ensinando ao seu filho. Ao ensinar que ele deve cumprir a lei, ser ético, reto e humanista você está formando outro “Zé da Castanha” quando a sociedade mostra que os melhores “Zés”, são aqueles da estirpe do “Zé Serra” e do “Zé Dirceu”.

Para aqueles que, como eu, nunca souberam do Zé da Castanha enquanto ele era vivo, compartilho um vídeo onde este bravo ser humano anuncia sua morte à um público de centenas de pessoas e com o patrocínio do grande capital. Tente não se emocionar!Z[

Para ajudá-lo(a) na difícil tarefa de educar os filhos nos dias de hoje, reproduzo algumas gravuras que copiei do blog do Ozaí:

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Publicado por em 25 de maio de 2011 em Uncategorized

 

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